- "Ow mãe! Tu acha isso justo? Comida não vale como presente, né?", disse desapontado.
- "Não sei. Depende.", respondi.
- "É que meu pai me deu um panettone de presente."
???
Eu sabia que o pai dele não tinha dado o panettone "de presente". Assim como também sabia que ele simplesmente ama panettone (é amor antigo ). E também sabia que mesmo sem querer, fiz pressão psicológica no papai.
Explico. Alguns minutos antes, marido havia ligado para casa, desde o supermercado. Ele e Pequeno foram jogar futebol. Eu, com preguiça, fiquei atiradona no sofá, curtindo um friozinho bom do ar condicionado. Fez um calorão aqui pelo RJ hoje. Passamos boa parte do dia (e da tarde) fora de casa. Tudo o que queria era um momento de descanso, tranquilidade e relax.
Daí que ... após o parquinho, foram para o supermercado. Marido ligou para avisar que estavam por ali e se precisava comprar algo. Foi então que comentei com ele que não havíamos comprado nada para o Pequeno de presente para o Dia das Crianças. Não é que tenhamos esquecido. É que como comentei antes, não damos muita bola para esta data (comercialmente falando).
Acontece que Pequeno já está grande. Já começa a reinvindicar "seus direitos". Faz comparações com os amigos. E não está nem aí para nossas explicações politicamente corretas. Ano passado foi a primeira vez que ele "se revoltou": todos os amigos da escolinha chegaram na escola comentando o que haviam ganhado de presente e que ele foi o único que não tinha nada de novo para contar. Me senti cruel. Mas também reconheço que o sentimento de culpa não demorou mais do que 1 dia. Logo foi esquecido.
Até que se aproximou o Dia das Crianças de 2014. E nem adianta dizer que dia das crianças é todos os dias, que ele não precisa de um dia especial pra ganhar presente, beijos, abraços e carinho, que as empresas cobram muito caro pelos brinquedos e que, quem sabe, pode rolar uma promoçãozinha depois, que antes de pensarmos em comprar algo novo precisamos nos preocupar com dividir o que temos (e temos muito) com quem não tem.
- "Não, mãe."
E daí tudo vira um dilema, porque um dia fomos criança, porque ganhávamos presentes nesse dia, sabíamos o quanto este momento é especial etc, etc, etc.
Pois bem. Rebobina lá para o supermercado.
Pequeno, espertinho que é, cantou bonito o Papai para comprar um panettone (na verdade um pandoro). Como bom italianinho, ele ama panettone (pandoro). Sempre que vamos ao supermercado ele fica de olho nos produtos. E ainda exclama:
- "Olha, veio da Itália!"
Mas a mãe dele não se comove muito fácil. E os argumentos, basicamente, são os mesmos de sempre:
- "Nem pensar. Tá muito caro. No final do ano vamos pra casa da nonna e lá tu vai encher a barriga de panettone no Natal. Época exata para comê-lo."
Como se gula tivesse 'época exata'. Mãe tem cada coisa ...
Mas hoje juntou a fome com a vontade de comer: o golpe foi baixo. Papai caiu direitinho na armadilha e não soube negociar bem com Pequeno (ou Pequeno não negociou bem com papai).
Pequeno queria pandoro. Papai não queria comprar. Pequeno insistiu no pandoro. Papai lembrou do que eu havia dito: "não compramos presente pra ele". Pequeno suplicou pelo pandoro. Papai, querendo ser esperto, negociou:
- "Ok. Que tu prefere: um presente ou o panettone?"
Ele não pensou nem dois segundos e foi traído pela gula.
Depois ele pensou bem, mas não quis abrir mão do manjar desejado (e nem do presente - que nem estava nos planos). Meio que discutiram no supermercado. Papai ficou brabo. Pequeno, que tem um geniozinho danado (não, não sei a quem (me) puxou) fez cara de poucos amigos. Mas compraram o danado do panettone e vieram discutindo pelo caminho.
Pequeno se apressou ao entrar em casa. Veio na sala, onde seguia atiradona curtindo o ventinho gostoso do ar condicionado e, antes de que papai se aproximasse, com a sacola do supermercado em mãos, me disse furioso:
- "Ow mãe! Tu acha isso justo? Comida não vale como presente, né?".
Começou a chorar. Me sensibilizei (não sabia da missa a metade ...) e disse a ele que, então, amanhã sairíamos com ele e compraríamos uma besteirinha, só para o dia não passar em branco. Debilidade total.
Mas logo marido chegou na sala e contou sua versão, que não era nenhum pouquinho simples, tranquila e sentimental conforme o espertinho do meu filho tinha contado.
- "Peraí! Senta aqui e vamos conversar ..." (eu só queria um pouquinho de relax!!!).
E a conversa rendeu ... Papai cheio de razão e nadinha contente com Pequeno. Pequeno se achando com razão e apelando ao drama extremo:
- "Faz temmmmmpo que eu tô com vontade de comer esse panettone."
E a verdade é que antes de dormir ele tomou leitinho com panettone ... e se lambuzou. Foi até interessante vê-lo comer algo com tanto gosto. Tô mole hoje, reconheço! (deve ser pelo calor ...)
O Dia das Crianças ainda nem chegou e eu já tenho certeza de que nosso domingo vai render alguma que outra DR (Dê-Erre) familiar. Isso sim: barriguinhas cheias de pandoro. Uma discussão, digamos, algo doce.
Olha minha querida....deixa crescer e tu vai sentir saudades do problema pandoro. kakakkakak beijos.
ResponderExcluirDa tia Eliane.