Ontem fui fazer exame de sangue. Pela primeira vez aqui na Itália (aliás, o último exame foi logo após o Pequeno nascer ... que vergonha!).
Quando minha dermato perguntou quando tinha sido a última vez que havia feito uma análise sanguínea, sorri. Então, diz ela: "mais de 1 ano?". Sorri de novo. E disse que há mais de 4. Levei um sermão normal de médico preocupado com a saúde da paciente. Ela aproveitou a deixa e me pediu análise de tudo: glicose, colesterol, triglicerídeos, ferro, tiróide e mais um monte de coisa que nem sei direito como se chama.
Assim que ontem deixei Pequeno cedinho na escola e fui andando até o centro médico (público) onde teria que fazer a coleta de sangue. Não é longe de casa, mas dá uns bons minutos de caminhada.
Chegando lá, primeiro tive que pagar o ticket, como se diz por aqui. Embora seja pelo sistema público de saúde, dependendo do que a gente vá fazer, primeiro a gente paga uma taxa. Mais tarde, quando se faz a restituição do imposto de renda, eles devolvem o dinheiro (só não sei dizer ao certo em qual percentual ou se devolvem o valor integral).
Quando a dermato me pediu o exame, comentei que poderia fazê-lo particular (pois temos convênio médico). Ela arregalou um olhão e disse algo como "estás louca? nãooooo, faz pelo público mesmo". Fiquei na dúvida de quão caro seria fazer um exame de sangue particular. Mas a verdade é que nem me preocupei em perguntar.
Quando fui pagar o ticket levei um susto: €50. Cinquenta Euros? Quase que disse pro moço do caixa: "Acho que houve um engano. Não quero fazer uma eco nem nada do tipo, é um simples exame sanguíneo!". Ok. Deixa de ser mão-de-vaca, não reclama e paga este troço de uma vez, pensei.
Mas a verdade é que pensando em todas as pessoas que não tem condições de pagar o ticket, como fazem? Talvez exista algum desconto, alguma isenção. Sei lá. Mas achei um desaforo. Se é público é público, ora bolas! A gente paga imposto (e aqui muitos!) pra quê?
Bom, superado o primeiro passo, simbora procurar onde fazia o exame. Chego num corredor enorme, que estava repleto de gente (90% de velhinhos acima dos 70 anos). Busco alguma informação, alguma indicação, algum local onde dizia algo como "sala de exames, sala de coleta ou 'sua sala é aqui seu perdido' ". Nada. Havia somente sala A, sala B, C, D ... e todo o alfabeto.
Perguntei pra uma das senhoras se era por ali que fazia análise de sangue.
- "Sim. Aqui mesmo. Só tem que esperar quando eles abrem a porta e entregar essa folhinha". Disse, apontando pra requisição do exame que tinha em mãos.
- "Obrigada, senhora!".
Esperei alguns minutos e, logo, um senhor com uma bata branca abriu a porta. Fui entregar a requisição. Ele me olhou com cara de desleixo e de maneira muito grosseira, disse:
- "Tem que esperar, ué. Quando a gente terminar a gente sai e pega as requisições".
Eita! Juro que pensei em dizer: "Oh, animal!". Mas na dúvida se seria ele a furar meu braço, respondi:
- "Me desculpe, não sei como funciona pois é a primeira vez que venho fazer exame aqui".
Ele bateu a porta, sem dizer nada.
Sentei e fiquei quietinha, por si acaso. Cabe dizer que não fui a única a "incomodar" o enfermeiro estressado. Aliás, uma menina que chegou logo após, brigou feio com ele. "Bem feito!", pensei.
Deveriam colocar um simples cartazinho escrito: "sala de exame" e "aguarde ser chamado". Pronto. Seria muito mais fácil pros funcionários e pros pacientes. Parece ser que o povo gosta mesmo de complicar a vida ... deles e nossa.
Logo comecei a presenciar as cenas que tanto 'adoro': os velhinhos impacientes, as reclamações, as trocas de experiências, o enfermeiro estressado que se estressa com a pessoa n° 30 do dia (e olha que nem passava das 9hs), a velhinha perdida que vem acompanhada da filha estressada e mal educada, a grávida que tira um cochilo no banco enquanto espera pra ser atendida, os que deveriam ter trazido um potinho com urina e não trouxeram, os que tem medo de fazer exame, os que querem ser atendidos antes dos demais ... e por aí vai. Logo chamaram o n° 36. Bingo! Euzinha!
Felizmente a enfermeira que tirou meu sangue era bem simpática e ficou admirada que não me dava agonia fazer o exame (???).
Fiquei aliviada ao voltar pra casa, ainda quase que sorrindo sozinha pela rua, lembrando das cenas que acabava de presenciar.
Mais tarde mostrei pro Pequeno a feridinha do exame, aproveitei a deixa e disse:
- "Viu só! O doutor disse que não estava comendo direito e tive que tirar meu sangue pra fazer exame".
Não sei se foi coincidência, mas tanto no almoço quanto na janta ele comeu tudinho.
Viu só?! Entendo bastante de tortura psicologia infantil :)
Nossa amigaaaaaa... muito bem! Sua médica teve de lhe puxar as orelhas.
ResponderExcluir€50. Cinquenta Euros? Tenho aqui em Osório (prêmio de Cartogarfia)...
Esse ticket esta caro... a saúde pública aqui também anda um caos.
É as cenas que presenciou ai...aqui também são iguais: só muda o endereço.
"...tortura psicologia infantil..." Coitado do Pequeno...quando crescer e souber disso tudo!!!
Beijão.