Nem pareço ...

     - "Mas você nem parece brasileira!".

    Nesses meus quase um quarto de século como estrangeira, talvez essa seja a frase que mais tenha escutado.

    No início dessa minha vida nômade até me chocava um pouco. Mas logo eu compreendi: venho de um país tropical, abençado por Deus, bonito por natureza e multiétnico.

    Apesar de já estar acostumada com essa afirmação, que na maioria das vezes é entoada em som exclamativo, por vezes ainda me pega desprevenida. E voltaram a acontecer, num período de tempo muito próximo (um numa semana e outro na semana seguinte). O bom de tudo isso é que, apesar do costume, ainda me causa uma necessidade de reflexão.

    Há alguns dias estava conversando com minha vizinha (a dos vasos - se não sabe do que estou falando, basta clicar aqui). Em determinado momento ela solta:

    - "Mas tu nem parece uma brasileira, tu parece uma italiana."

    Mal sabia minha vizinha que ela estava me dando entrada para um discurso que já tenho bem organizado na minha mente e que adoro explanar, explicar, esclarecer e todos os demais sinônimos compatíveis.

    - "Pois a senhora sabe que no Brasil não temos essas questões de "parecer" ou não, porque o Brasil é um pais com uma mistura de povos incrivelmente bela. A senhora sabia (claro que não!) que de onde venho, do Sul do Brasil, existiu uma grande imigração italiana? Muitos italianos foram pro Brasil, lá pelo final de 1800. O Brasil tem milhões (MILHÕES) de descendentes italianos."

    Ela, que fala muito, ficou muda. Continuei:

    - "A avó paterna do meu marido nasceu em São Paulo, a senhora acredita?"

    Ela sorriu e eu prossegui:

    - "De onde eu sou, do Sul do Brasil, se a senhora olhar no mapa, aquele estado láááaaaa embaixo, pertinho da Argentina, teve uma grande imigração, daqui do Norte da Itália, muitos do Vêneto (região ao lado da que moramos)."

    - "Tá aí! Por isso que tu parece italiana ..."

    - "E se eu lhe contar que na minha árvore genealógica não tem italianos? São portugueses e espanhóis."

    Ela ficou pensando ...

    E eu sorri. Sorrio de verdade porque não me incomoda, pelo contrário, fico feliz com a oportunidade perfeita de contar um pouquinho de história. E de fazê-los perceber que, no final, somos mais ligados do que imaginamos. (no caso, eles imaginam).

    Gosto de contar que no Sul do Brasil ainda hoje se falam dialetos do Norte da Itália que atualmente não se falam mais aqui por essas bandas. Ainda brinco: nós mantemos as tradições que vocês já perderam.

    Gosto de contar que lá no Sul existe o  chamado Talian, um dialeto reconhecido como patrimônio cultural brasileiro que mistura o vêneto com o português.

    Quando falo que só a região de São Paulo tem milhões e milhões de descendentes italianos, o povo se assusta. 

    Segundo o Google, além dos cidadãos oficialmente registrados (por volta de 390.000), estima-se que a Grande São Paulo abrigue entre 15 e 20 milhões de descendentes de italianos.

    Pois bem ... passaram-se alguns dias e fomos para Capistrello, a cidade do marido. Aquela rotina de cidade pequena, sempre encontra algum conhecido ou parente pela rua. Encontramos os primos do marido. Conversando com a esposa do primo, de repente ela me solta:

    - "Mas tu nem parece brasileira ... até como tu fala ..."

    Sorri. E o resto da conversa vocês já sabem:

    - "E se eu te contar que de onde eu sou, do Sul do Brasil ..."

    Acho que falta ensinar nas escolas essa parte da história deles, que se mistura com a nossa.

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    P.S.: Nick Jr., que na época ainda era "Pequeno" estudou sobre isso no Brasil :) teve até post resumido sobre a história , basta clicar aqui para ver

"Quarent'oitei"

    Dia 18 de Abril (que data bonita!) completei 48 anos. 

    Não. Não estou aqui para escrevê-los sobre idade, o peso dela e o quanto ela me preocupa. Nunca tive problema com idade, não tive crise dos "inta" e muito menos dos "enta". A idade não me preocupa e nem o que ela traz consigo. Tenho, óbvio, algumas questões mas nada que tire meu sono ou me dê medo. Quem sabe com alguma graninha extra faria algum que outro retoquezinho? Talvez ... mas se tivesse que escolher entre um retoque ou viver uma experiência, uma viagem ... escolheria a segunda opção, com certeza!

    Quem convive comigo há algum tempo sabe que não gosto do meu aniversário. Não é meu dia mais esperado, não gosto de comemorar, bolo e parabéns então ... me dão urticária. Já falei sobre isso algumas vezes aqui no blog. Quem perdeu clica pra ver o aniver de 2010, o aniver de 2011, o aniver de 2012, o aniver de 2013. Depois fiquei algum tempo sem fazer post. Mas tem também o de 2018, o aniver em quarentena de 2020 e o de 2025.

    Não significa que eu sempre tenha detestado fazer aniversário (se for ler os posts que mencionei aí acima vai visualizar e, talvez, entender esse meu turbilhão de sentimentos). 

    Óbvio que quando era criança amava meu dia, minhas festas com meus amigos em casa, adorava receber presente e fazia questão de avisar aos desinformados que aquele era o meu dia, só pra ganhar parabéns.

    Também amei as minhas festas adoslescentes e depois já maiorzinha, curtindo baladas, farras, dando muita risada e sendo feliz.

    Talvez com a idade tenha ficado mais introspectiva. 18 de Abril não é um dia terrível mas hoje prefiro menos alardes, menos comemorações, menos publicidade. Eu não sei explicar direito essa minha sensação: sou feliz e agradeço por todo o carinho que recebo (e recebo tanto carinho mesmo! Que sorte a minha!).

    De uns anos pra cá meu dia tem ficado mais triste. Faz uma falta tremenda o Parabéns do meu pai. Me bate uma tristeza, uma nostalgia, uma dor no peito. Como eu queria ouvir do meu velhinho bonitinho aquelas palavras bem entonadas, bem organizadas, naquele tom de voz alto, ditas também com os olhos, com toda a sua eloquência e expressividade. Mais ou menos como ele fez aqui nesse dia. Talvez me dedicasse uma música na rádio da cidade, competisse com minha mãe pra ver quem me "abraçava" primeiro. Quando a vida deixa de ser no Presente e passa a ser no Pretérito Imperfeito do Subjuntivo, indicando uma possibilidade passada ou hipotética que a gente sabe que não vai mais acontecer, fica tudo bastante triste.

    Mas eu vivo nesses altos e baixos, nessas misturas doidas de sentimentos, os alternando entre tempos passados, presentes e futuros.  Ao mesmo tempo em que sofro pelo que não tenho mais, sou imensamente grata pelo tanto que ainda tenho. Quanto carinho eu recebi da minha família (se reuniram na casa da minha mãe para o café da tarde, me ligaram e cantaram parabéns, com direito a bolo) e carinho dos amigos também! Que sorte a minha ter conseguido cultivar e manter tanta gente querida perto de mim, apesar da distância, das minhas mudanças.

    Falando em amigos, neste ano celebrei com as amigas também. Tenho uma amiga querida que faz aniver dia 17. Assim que nos reunimos e celebramos nossos anivers com nossas amigas, num aperitivo bem bom, daqueles onde o papo rola e quando a gente vê já é uma da manhã :)


    Os meus Nicola's resolveram me fazer uma surpresa (logo eles que são péssimos para guardar segredos). Organizaram uma viagem (para um lugar aqui perto, umas 2 horas e meia de casa). Reservaram hotel, restaurante e conseguiram, a muito custo (muito mais pro Nicola Sr., devo dizer) manter segredo até o momento da nossa chegada na cidade.

    Eles queriam ir para um lugar que fosse novidade para os 3 e que não fosse uma viagem longa.

    Meu desejo de presente ideal seria passar meu aniver em Madrid :) ... mas seria mais cansaço que divertimento, pouco tempo ... nada feito.

    Meu sonho de presente também poderia ser as Maldivas :) ... só para enlouquecê-los.

    Como sabia que o destino final não seria nem um e nem outro, não fiz questão de ficar perguntando muita coisa. Só pedi que me dessem a previsão metereológica e algumas pistas, afinal tinha que arrumar minha mala para o final de semana. E não sou nenhum pouquinho doida de encarregá-los esta tarefa.

    Chegamos em Bassano del Grappa e a verdade é que num primeiro momento não fiquei impactada mas logo fomos passear pela cidade e ela me surpreendeu gratamente. Tanto que fiquei com vontade de voltar.








    A cidade é conhecida como a "capitale mondiale degli Alpini".  E é também a cidade da grappa.

    Passamos um final de semana muito legal, curtimos muito o meu dia e à noite só não foi perfeita porque inventaram de falar no restaurante que era meu aniversário e no momento do doce, vieram cantar "Tanti Auguri" com uma vela em cima do meu gelato :( ... passei uma vergonha daquelas ... nessa altura do campeonato e da convivência, meus Nicola's deveriam saber que não gosto disso. Mas como boa ariana ... prometi  vendetta  ... eles que me aguardem!



    No dia seguinte a previsão era de chuva assim que deixamos o hotel e pegamos a estrada de volta pra casa. Queríamos aproveitar pra passar em Sirmione (lugar que adoro na região do Lago di Garda) e passarmos na nossa cantina preferida pra comprar alguns vinhos. Mas a cantina estava fechada. Fica para uma próxima oportunidade.

    Assim que passaram-se os 48, sem grandes traumas, com bons momentos, muito carinho, sendo muito feliz e grata por todos que eu tenho.

    O que não significa que não siga cada vez mais chata, reclamona, pessimista, resmungona ... mas isso já é papo pra outro post ... :)

Grazie mille, my boys! Eu amo vocês!

Cicatrizes.

    O ano era 2009. Pequeno (atualmente Nick Jr.) frequentava a escolinha (a primeira) em Roma.

    Numa tarde qualquer, chego na escola para buscá-lo e, lembro como se fosse agora mesmo, o olhar de desespero da assistente da escola. De uma maneira muito preocupada, constrangida e nervosa, me contou que uma coleguinha (a melhor amiga do Nicola) havia, sem querer, batido com um caminhão de brinquedo no rosto dele.

    Eu ainda não o tinha visto e,  pelo desespero dela, comecei a me preocupar.

    Logo Nicola veio. Apareceu com uma ferida, nada de grave nem desesperado, bem na bochechinha. Dava peninha porque ele era redondinho bochechudo coisa mais fofa deste mundo  mas aparentemente não tinha nada de exagerado ou preocupante por ali. Tanto que ficou por isso mesmo.

    Francesca, a amiguinha preferida (que mesmo depois disso seguiu sendo a preferida) pediu desculpas, a mãe da Francesca também se desculpou. E pronto. Nada demais. Acontece.

    E a vida que seguiu ... e tanto seguiu sem preocupação que, procurando registros deste momento, acabei me dando por conta de que ... não tem registros deste momento (tamanha a não importância que demos).

    Pequeno foi crescendo ... e junto com ele  uma cicatriz boba, que dependendo do momento, aparecia mais ou menos:






    Tem que fazer um esforço muito grande para conseguir enxergar a marca na bochecha do Pequeno Nicola.

    Nesses dias, enquanto tomávamos nosso chimarrão, percebi o quão profunda, grande e aparente virou essa danada dessa cicatriz. Ele cresceu ... e ela cresceu junto com ele.


    Ficou ali, pra sempre, registrado no rosto do pequeno Nick Jr. a marca de um momento bobo.

    Ao longo da sua vida, Nick Jr. foi acumulando cicatrizes: os infinitos tombos de bicicleta, machucados de futebol ... até algumas míseras picadas de mosquito deixaram marcas pra sempre. Aliás, uma dessas cicatrizes de picada de mosquito rendeu até um estresse quando fomos morar no Rio de Janeiro (contei aqui). Tombos de skate, patinete, tombos na praia também deixaram alguma que outra marca.

    Mas ... quem nunca? Eu tenho muitas ... marcas nos joelhos dos tombos que levei quando pequena, a cicatriz que carrego na mão por conta de um copo de vidro que quebrou enquanto lavava louça, cicatrizes por conta das minhas alergias. Mas a maior cicatriz que tenho é a que carrego com orgulho: a cicatriz da cesárea.

    O Nick Sr. também, cheio de cicatrizes: na palma da mão quando caiu em cima da lareira (acesa) quando era criança,  as marcas nos ombros por conta dos pontos de uma cirurgia ... e por aí vai.

    Quem não tem cicatriz não tem história pra contar ...




A paz nasce do silêncio ...

     Final de semana passado fomos para Capistrello. Como costumamos fazer, paramos sempre mais ou menos no meio do caminho para dormirmos e no dia seguinte seguirmos viagem. Quase sempre a gente para na região da Toscana. Desta vez marido quis fazer algo diferente: ao invés de reservar um hotel, reservou um quarto numa residência de freiras (um Convento) na cidade de Loreto.

    Loreto é uma cidade bonitinha na região Marche. É um dos centros de peregrinação mariana (li em algum lugar que é um dos mais importantes centros de peregrinação do mundo). Abriga a Santa Casa de Nazaré dentro da Basílica della Santa Casa. A tradição católica afirma que esta casa, onde a Virgem Maria recebeu a Anunciação e Jesus viveu, foi milagrosamente transportada por anjos no século XIII.


    A cidade desenvolveu-se inteiramente ao redor do Santuário e mantém uma atmosfera profunda de fé e história, sendo um destino essencial para turismo religioso na Itália. A Madonna di Loreto é considerada a padroeira dos aviadores e viajantes aéreos, com o dia de sua festa celebrado em 10 de dezembro (dia do aniver do Nick Sr.).


    Nós ficamos na Casa di Accoglienza "Sacra Famiglia di Nazareth", um convento conhecido como o "convento das freiras polacas". (mais informação clica aqui), fica situado juntinho ao Santuario di Loreto.


    Chegamos e fomos  recepcionados por uma freira simpática e sorridente (desculpem minha ignorância mas não sei como definir: irmã, freira, ou se naquela congregação tem outro nome - não é falta de respeito, é ignorância mesmo).

    Fiquei conversando com ela enquanto marido foi estacionar o carro. Ela confirmou se nosso nome estava na lista (uma lista feita à mão). Pediu meu documento para fazer o "check-in" e logo me deu duas chaves com seus respectivos chaveiros. Sorriu e me disse: 

    - "É que aqui nós não somos modernos, vai ter que sair com duas chaves".

    Uma era a do nosso quarto e a outra era da porta de entrada da residência. Me explicou que quando saísse teria que girar a chave duas vezes. Quando voltasse, precisava  girar a segurança da fechadura em duas voltas. Caso tivesse ficado alguma dúvida, repetiu resumidamente:

    - "Quando sai gira a chave duas vezes (fez sinal com a mão) ... quando volta o botão aqui duas vezes."

    Confirmei que havia entendido (vai que ela repetisse ...) e quando marido voltou fiz questão de repetir a informação na frente dela.

    Logo nos acompanhou até nosso quarto. Antes, como era tudo muito próximo, no mesmo corredor, nos mostrou a Capela para oração (com um altar bem bonito) e nesta residência tem também o quarto onde esteve  João Paulo II que, durante a  peregrinação à Loreto (no ano de 1979) passou por ali.

    - "Este é o quarto do Santo João Paulo II, vocês podem entrar e ver ..."

    Marido ficou todo emocionado, eu fiquei meio sem jeito de entrar e bisbilhotar.

    A irmã seguiu:

    - "E aqui do lado do quarto dele ... é o quarto de vocês ..."

    - "Como assim vou dormir do lado do quarto de João Paulo II???", pensei.

    Entramos os três. Ela foi conferir se estava tudo ok. Verificou que os aquecimentos não estavam ligados. Ficou alguns minutos ali conosco, tentando fazer o aquecimento funcionar. Mesmo a gente dizendo de que não tinha necessidade de ligá-los, pois o quarto já estava com uma temperatura agradável.

    Ela saiu, fechei a porta, olhei pro marido, arregalei o olho e disse: "estamos do lado do quarto do João Paulo II ...".

    Logo percebi que aquele era um lugar de silêncio absoluto. Absoluto mesmo, onde qualquer pequeno barulhinho é percebido: escutei que os passos da freira foram se distanciando, ao mesmo tempo em que escutava cada luz que ela apagava. Marido foi abrir a mala dele e fez um barulhão danado. 

    O aquecimento começou a funcionar. Marido foi avisar a freira. Abri a porta para dar uma espiada e vejo passar uma freira bem jovem, carregando um aspirador. Entre a Capela e o quarto de João Paulo passa uma freira com hábito cinza carregando um aspirador. Achei engraçada aquela cena ... 

    O quarto era simples, com duas camas de solteiro, um pequeno guarda-roupa, uma mesa e duas cadeiras. Sobre a mesa um pequeno abajur para leitura e um livro do Evangelho.


    Enquanto marido tomava banho, li o Evangelho do dia. Logo disse pra ele:

    - "Lê o Evangelho!"

    - "Eu já li!", respondeu ele ... que tem o hábito de ler o Evangelho do dia todas as manhãs.

    - "Não! Tem que sentar aqui na mesinha, ligar o abajur e ler ...", disse bem mandona.

    O banheiro era bem antigo mas assim como o quarto, tudo muito bem cuidado e muito limpo. A toalha de banho era do tamanho de uma toalha de rosto ... mas, tudo bem.

    Logo saímos para irmos ao Santuário. Nós já conhecíamos Loreto de uma outra vez que estivemos por ali de passagem. Mas é uma cidade com uma atmosfera especial e vale a pena voltar.

    Visitamos o Santuário e logo tivemos tempo de assistir à missa daquele final de tarde (onde o Padre repetiu o Evangelho e eu quase já o sabia de cor e salteado).

      Após a missa, passeamos um pouquinho pela cidade. Pouquinho mesmo pois tinha uma neblina densa e fria.


    Jantamos no Ristorante Casa Accoglienza Pellegrini (que já conhecíamos da outra vez). Uma comida boa, com um preço justo, uma batata frita deliciosa e um vinho da casa bem bom.

    Voltamos cedo para a residência (não dá pra chegar tarde na casa das freiras ... até "dava", a irmã nos disse que não tinham restrições de horário mas, por respeito, voltamos cedo). A ideia era dormir cedo, pra acordar cedo e seguir viagem no dia seguinte.

    Deitei e pensei: "que beleza! Vou dormir umas 10 horas de sono tranquilo".

    De repente começo a escutar um barulho de gota. Uma única gota que caía, com uma precisão de mais ou menos 1 segundo por gota (ou seria 1gota/segundo?). Até pensei que poderia ser algum desses relógios antigos ... será que tinha algum relógio no quarto de João Paulo II? Acho que não. Era gota mesmo, de algum lugar.

    O pé direito do quarto era bastante alto, o que fazia com que o barulho ecoasse e dava a sensação de que a gota estava ali no quarto.

    - "Não tava ouvindo essa gota antes ... daqui a pouco ela passa.", pensei enquanto virava de um lado para o outro, na minha cama singola, tentando dormir.

    Plim ... Plim ... Plim ...

    Nada de conseguir dormir por conta da bendita gota.

    Parecia que estava tentando dormir há uma eternidade. Olho o relógio, marcava meia noite. Fazia realmente "um tempão", já que fui deitar umas nove da noite.

    Conseguia pegar no sono mas logo acordava com aquele Plim insistente e irritante.

    Lá pelas duas da manhã, fiz uma introspecção, bati um papo cabeça comigo mesma:

    - "Tatiana, minha filha, veja só ... se você está em um lugar de paz, de silêncio, e não está tendo nem paz e nem silêncio, cara pessoa, reflita: o problema deve estar em você, na sua aura, no seu pensamento, no seu coração."

    Acabei batendo boca mentalmente comigo:

    - "Torração de paciência! Já não consigo dormir e ainda vem botar ideia na minha cabeça ..."

    3 da manhã resolvi levantar, pé por pé, pra não fazer barulho pra ninguém. Liguei a lanterna do celular e saí à caça da gota maldita. Achei que estivesse pingando nos aquecedores do quarto ou do banheiro. No do quarto com certeza não era. Fui até o banheiro ... ali também não tinha nada pingando. Resolvi desligar o aquecedor do banheiro, afinal ninguém precisava de um banheiro quentinho.

    Voltei para a cama ... e o barulho parou.

    - "Eu sabia! Eu sabia!", comemorei mentalmente.

    Mas a felicidade durou pouco tempo. Logou começou o Plim Plim de novo.

    Rezei para todos os Santos possíveis para que me ajudassem a dormir nas poucas horinhas de sono que me restavam.

    Logo passei a mentalizar uma frase que gosto muito, que a li num Santuário que tem próximo de Capistrello, a terra do Nick Sr.:

    - "La pace nasce dal silenzio" ... A paz nasce do silêncio.

    Fiquei repetindo essa frase quase como um mantra, enquanto tentava entender naquele silêncio absoluto o barulhão ensurdecedor de uma gota: quando o silêncio é total qualquer pequeno rumor vira um barulhão.

    Cinco e pouca da manhã o hóspede do quarto de cima resolveu ir ao banheiro. Parecia que ele estava no nosso banheiro. Um simples abrir de torneiras soava como as Cataratas do Iguaçu.

    Tirei um cochilo e acordei às 7 da matina, cansada, com dor de cabeça de sono, querendo sentir raiva do vizinho de cima mas lembrando que estava num local espiritualmente abençoado, nenhum sentimento ruim deveria prevalecer.

    Acabei batendo um papo mental introspectivo novamente: havia entendido o recado. A paz que eu estava buscando fora deveria iniciar partindo de dentro. Se eu não estou em paz comigo mesma, até uma gota é capaz de tirar meu sossego.

    Li o Evangelho do dia. Aquele que fala sobre "amar até o nosso inimigo". 

    Tomamos banho, arrumamos nossas coisas, nos despedimos da freira que estava na recepção (não  era a mesma do outro dia) e fomos tomar café (oferecido pelas freiras mas num bar que fica na praça do Santuário). 


   Queríamos  ter passeado um pouco mais pela cidade, curtir a vista do Mar Adriático  mas a neblina continuava. Assim que pegamos o carro e seguimos viagem para Capistrello.


    Onde, naquela noite, descobri que era o melhor lugar do mundo para se estar: dormi em paz, no silêncio total e absoluto, o sono dos deuses ...

    La Pace Nasce dal Silenzio ... já tive vontade de tatuar essa frase ... mas ela agora virou um mantra, mais do que na pele, está registrada na minha alma. Entendi o recado, Papai do Céu!


           (vai para um local com silêncio, coloca o volume no máximo e me diz que você escuta a gota também. Gota, carro passando, gota novamente ... confirma que não  é coisa da minha cabeçapor favor! )

Hora do Chima.

    Dentre as tantas coisas das quais sinto saudades do Brasil, uma delas é da hora do chimarrão.

    Chimarrão  é uma  bebida típica da cultura sul-americana, especialmente no Sul do Brasil (RS), Argentina, Uruguai e Paraguai, feita da infusão de erva-mate (Ilex paraguariensis) moída em água quente (não fervente). É consumido em uma cuia com auxílio de uma bomba de metal, representando um forte elo social, cultural e de pertencimento.O chimarrão é um símbolo da identidade gaúcha, consumido diariamente como um hábito que promove o encontro e o compartilhamento.

    Sinto falta daquela roda de pessoas batendo papo enquanto a cuia vai girando de mão em mão  (e eu nunca sei qual é o sentido certo do giro). Tem sempre um espertinho que tenta furar a fila, dependendo do tamanho da roda é fácil que a pessoa que está servindo o chima (ou chimas como dizemos carinhosamente) se perca na ordem da fila. 

    A hora do mate vai além dos muros caseiros: se toma chimarrão no trabalho, numa reunião, eu tomava chima com os colegas na escola, faculdade. Se toma chima até na praia! Faz realmente parte da rotina dos gaúchos.

    Como já contei num post  recente, Nick Jr. desta vez voltou do Brasil mais nostálgico. Desde sempre, desde muito pequeno, ele se sente "gaúcho" (já contei aqui, e nesse post aqui - pra citar alguns deles). Quando ele era pequenino, costumava dizer: "se minha mãe é gaúcha, sou gaúcho também". A herança materna segundo a visão dele.

    Desde que voltamos de viagem, temos uma espécie de rotina para nosso chima diário: no final da tarde nos reunimos (eu e ele, porque Nick Sr., não tem jeito, não gosta de chima). Nick Jr. prepara o chimarrão, nos sentamos na cozinha e bebemos nosso mate.


    Não são todos os dias que temos papo para conversar. Aliás, já teve até dia em que passamos o dia inteiro sem trocar palavra (adolescência, sabe?!) mas mantivemos nossa hora do chima. Definitivamente o chimarrão aproxima.


    Rico em antioxidantes, vitaminas do complexo B, cafeína e minerais, ele é um estimulante natural que ajuda na concentração, no funcionamento do intestino e na redução do colesterol ruim. (Fonte: diversas da Internet)

    Eu sei que pra quem não conhece e olha assim de fora parece meio estranho: uma  bebida quente que o povo toma seja de inverno que de verão, um gosto amargo, tem até quem diga que é meio "nojento", sem contar esse negócio de "só passa a cuia quando roncar" ... eu sei. Você pode  achar estranho ... mas, de verdade, se você nunca provou, não sabe o que está perdendo.

    Mesmo com todas as pressas e correrias do mundo, dos estresses e discussões (de mães/pais/adolescentes), o velho e bom chimas está aí pra mostrar que, apesar de tudo, a gente precisa manter tradições e que  uma pausa,  uma boa conversa e, sobretudo, a companhia rende esta Vida muito mais bonita, tchê!.








Nem pareço ...

      - " Mas você nem parece brasileira !".     Nesses meus quase um quarto de século como estrangeira, talvez essa seja a frase ...