A paz nasce do silêncio ...

     Final de semana passado fomos para Capistrello. Como costumamos fazer, paramos sempre mais ou menos no meio do caminho para dormirmos e no dia seguinte seguirmos viagem. Quase sempre a gente para na região da Toscana. Desta vez marido quis fazer algo diferente: ao invés de reservar um hotel, reservou um quarto numa residência de freiras (um Convento) na cidade de Loreto.

    Loreto é uma cidade bonitinha na região Marche. É um dos centros de peregrinação mariana (li em algum lugar que é um dos mais importantes centros de peregrinação do mundo). Abriga a Santa Casa de Nazaré dentro da Basílica della Santa Casa. A tradição católica afirma que esta casa, onde a Virgem Maria recebeu a Anunciação e Jesus viveu, foi milagrosamente transportada por anjos no século XIII.


    A cidade desenvolveu-se inteiramente ao redor do Santuário e mantém uma atmosfera profunda de fé e história, sendo um destino essencial para turismo religioso na Itália. A Madonna di Loreto é considerada a padroeira dos aviadores e viajantes aéreos, com o dia de sua festa celebrado em 10 de dezembro (dia do aniver do Nick Sr.).


    Nós ficamos na Casa di Accoglienza "Sacra Famiglia di Nazareth", um convento conhecido como o "convento das freiras polacas". (mais informação clica aqui), fica situado juntinho ao Santuario di Loreto.


    Chegamos e fomos  recepcionados por uma freira simpática e sorridente (desculpem minha ignorância mas não sei como definir: irmã, freira, ou se naquela congregação tem outro nome - não é falta de respeito, é ignorância mesmo).

    Fiquei conversando com ela enquanto marido foi estacionar o carro. Ela confirmou se nosso nome estava na lista (uma lista feita à mão). Pediu meu documento para fazer o "check-in" e logo me deu duas chaves com seus respectivos chaveiros. Sorriu e me disse: 

    - "É que aqui nós não somos modernos, vai ter que sair com duas chaves".

    Uma era a do nosso quarto e a outra era da porta de entrada da residência. Me explicou que quando saísse teria que girar a chave duas vezes. Quando voltasse, precisava  girar a segurança da fechadura em duas voltas. Caso tivesse ficado alguma dúvida, repetiu resumidamente:

    - "Quando sai gira a chave duas vezes (fez sinal com a mão) ... quando volta o botão aqui duas vezes."

    Confirmei que havia entendido (vai que ela repetisse ...) e quando marido voltou fiz questão de repetir a informação na frente dela.

    Logo nos acompanhou até nosso quarto. Antes, como era tudo muito próximo, no mesmo corredor, nos mostrou a Capela para oração (com um altar bem bonito) e nesta residência tem também o quarto onde esteve  João Paulo II que, durante a  peregrinação à Loreto (no ano de 1979) passou por ali.

    - "Este é o quarto do Santo João Paulo II, vocês podem entrar e ver ..."

    Marido ficou todo emocionado, eu fiquei meio sem jeito de entrar e bisbilhotar.

    A irmã seguiu:

    - "E aqui do lado do quarto dele ... é o quarto de vocês ..."

    - "Como assim vou dormir do lado do quarto de João Paulo II???", pensei.

    Entramos os três. Ela foi conferir se estava tudo ok. Verificou que os aquecimentos não estavam ligados. Ficou alguns minutos ali conosco, tentando fazer o aquecimento funcionar. Mesmo a gente dizendo de que não tinha necessidade de ligá-los, pois o quarto já estava com uma temperatura agradável.

    Ela saiu, fechei a porta, olhei pro marido, arregalei o olho e disse: "estamos do lado do quarto do João Paulo II ...".

    Logo percebi que aquele era um lugar de silêncio absoluto. Absoluto mesmo, onde qualquer pequeno barulhinho é percebido: escutei que os passos da freira foram se distanciando, ao mesmo tempo em que escutava cada luz que ela apagava. Marido foi abrir a mala dele e fez um barulhão danado. 

    O aquecimento começou a funcionar. Marido foi avisar a freira. Abri a porta para dar uma espiada e vejo passar uma freira bem jovem, carregando um aspirador. Entre a Capela e o quarto de João Paulo passa uma freira com hábito cinza carregando um aspirador. Achei engraçada aquela cena ... 

    O quarto era simples, com duas camas de solteiro, um pequeno guarda-roupa, uma mesa e duas cadeiras. Sobre a mesa um pequeno abajur para leitura e um livro do Evangelho.


    Enquanto marido tomava banho, li o Evangelho do dia. Logo disse pra ele:

    - "Lê o Evangelho!"

    - "Eu já li!", respondeu ele ... que tem o hábito de ler o Evangelho do dia todas as manhãs.

    - "Não! Tem que sentar aqui na mesinha, ligar o abajur e ler ...", disse bem mandona.

    O banheiro era bem antigo mas assim como o quarto, tudo muito bem cuidado e muito limpo. A toalha de banho era do tamanho de uma toalha de rosto ... mas, tudo bem.

    Logo saímos para irmos ao Santuário. Nós já conhecíamos Loreto de uma outra vez que estivemos por ali de passagem. Mas é uma cidade com uma atmosfera especial e vale a pena voltar.

    Visitamos o Santuário e logo tivemos tempo de assistir à missa daquele final de tarde (onde o Padre repetiu o Evangelho e eu quase já o sabia de cor e salteado).

      Após a missa, passeamos um pouquinho pela cidade. Pouquinho mesmo pois tinha uma neblina densa e fria.


    Jantamos no Ristorante Casa Accoglienza Pellegrini (que já conhecíamos da outra vez). Uma comida boa, com um preço justo, uma batata frita deliciosa e um vinho da casa bem bom.

    Voltamos cedo para a residência (não dá pra chegar tarde na casa das freiras ... até "dava", a irmã nos disse que não tinham restrições de horário mas, por respeito, voltamos cedo). A ideia era dormir cedo, pra acordar cedo e seguir viagem no dia seguinte.

    Deitei e pensei: "que beleza! Vou dormir umas 10 horas de sono tranquilo".

    De repente começo a escutar um barulho de gota. Uma única gota que caía, com uma precisão de mais ou menos 1 segundo por gota (ou seria 1gota/segundo?). Até pensei que poderia ser algum desses relógios antigos ... será que tinha algum relógio no quarto de João Paulo II? Acho que não. Era gota mesmo, de algum lugar.

    O pé direito do quarto era bastante alto, o que fazia com que o barulho ecoasse e dava a sensação de que a gota estava ali no quarto.

    - "Não tava ouvindo essa gota antes ... daqui a pouco ela passa.", pensei enquanto virava de um lado para o outro, na minha cama singola, tentando dormir.

    Plim ... Plim ... Plim ...

    Nada de conseguir dormir por conta da bendita gota.

    Parecia que estava tentando dormir há uma eternidade. Olho o relógio, marcava meia noite. Fazia realmente "um tempão", já que fui deitar umas nove da noite.

    Conseguia pegar no sono mas logo acordava com aquele Plim insistente e irritante.

    Lá pelas duas da manhã, fiz uma introspecção, bati um papo cabeça comigo mesma:

    - "Tatiana, minha filha, veja só ... se você está em um lugar de paz, de silêncio, e não está tendo nem paz e nem silêncio, cara pessoa, reflita: o problema deve estar em você, na sua aura, no seu pensamento, no seu coração."

    Acabei batendo boca mentalmente comigo:

    - "Torração de paciência! Já não consigo dormir e ainda vem botar ideia na minha cabeça ..."

    3 da manhã resolvi levantar, pé por pé, pra não fazer barulho pra ninguém. Liguei a lanterna do celular e saí à caça da gota maldita. Achei que estivesse pingando nos aquecedores do quarto ou do banheiro. No do quarto com certeza não era. Fui até o banheiro ... ali também não tinha nada pingando. Resolvi desligar o aquecedor do banheiro, afinal ninguém precisava de um banheiro quentinho.

    Voltei para a cama ... e o barulho parou.

    - "Eu sabia! Eu sabia!", comemorei mentalmente.

    Mas a felicidade durou pouco tempo. Logou começou o Plim Plim de novo.

    Rezei para todos os Santos possíveis para que me ajudassem a dormir nas poucas horinhas de sono que me restavam.

    Logo passei a mentalizar uma frase que gosto muito, que a li num Santuário que tem próximo de Capistrello, a terra do Nick Sr.:

    - "La pace nasce dal silenzio" ... A paz nasce do silêncio.

    Fiquei repetindo essa frase quase como um mantra, enquanto tentava entender naquele silêncio absoluto o barulhão ensurdecedor de uma gota: quando o silêncio é total qualquer pequeno rumor vira um barulhão.

    Cinco e pouca da manhã o hóspede do quarto de cima resolveu ir ao banheiro. Parecia que ele estava no nosso banheiro. Um simples abrir de torneiras soava como as Cataratas do Iguaçu.

    Tirei um cochilo e acordei às 7 da matina, cansada, com dor de cabeça de sono, querendo sentir raiva do vizinho de cima mas lembrando que estava num local espiritualmente abençoado, nenhum sentimento ruim deveria prevalecer.

    Acabei batendo um papo mental introspectivo novamente: havia entendido o recado. A paz que eu estava buscando fora deveria iniciar partindo de dentro. Se eu não estou em paz comigo mesma, até uma gota é capaz de tirar meu sossego.

    Li o Evangelho do dia. Aquele que fala sobre "amar até o nosso inimigo". 

    Tomamos banho, arrumamos nossas coisas, nos despedimos da freira que estava na recepção (não  era a mesma do outro dia) e fomos tomar café (oferecido pelas freiras mas num bar que fica na praça do Santuário). 


   Queríamos  ter passeado um pouco mais pela cidade, curtir a vista do Mar Adriático  mas a neblina continuava. Assim que pegamos o carro e seguimos viagem para Capistrello.


    Onde, naquela noite, descobri que era o melhor lugar do mundo para se estar: dormi em paz, no silêncio total e absoluto, o sono dos deuses ...

    La Pace Nasce dal Silenzio ... já tive vontade de tatuar essa frase ... mas ela agora virou um mantra, mais do que na pele, está registrada na minha alma. Entendi o recado, Papai do Céu!


           (vai para um local com silêncio, coloca o volume no máximo e me diz que você escuta a gota também. Gota, carro passando, gota novamente ... confirma que não  é coisa da minha cabeçapor favor! )

Um comentário:

  1. Ahhhh que eu me divirto tanto quanto conheço o mundo e as histórias mais incríveis contigo!
    Pior foi eu ter "ouvido" a tal gota 🤣🤣🤣
    Que lugar incrível! Que emoção dormir ao lado do quarto do João Paulo II 🥹🥹🥹🥹
    Que viagem fantástica. A foto do retrovisor já estava gravada na minha mente, depois que vi nos Stories.
    Jesussss eu passei por isso com um pingo na calha, na casa dos meus pais e achava que era alguém batendo em algum pino, para abrir alguma janela 🫣🫣🫣🫣🫣

    Amei, Bella!
    Que venham mais estórias com história que eu amoioo

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A paz nasce do silêncio ...

      Final de semana passado fomos para Capistrello. Como costumamos fazer, paramos sempre mais ou menos no meio do caminho para dormirmos ...