- "Mas você nem parece brasileira!".
Nesses meus quase um quarto de século como estrangeira, talvez essa seja a frase que mais tenha escutado.
No início dessa minha vida nômade até me chocava um pouco. Mas logo eu compreendi: venho de um país tropical, abençado por Deus, bonito por natureza e multiétnico.
Apesar de já estar acostumada com essa afirmação, que na maioria das vezes é entoada em som exclamativo, por vezes ainda me pega desprevenida. E voltaram a acontecer, num período de tempo muito próximo (um numa semana e outro na semana seguinte). O bom de tudo isso é que, apesar do costume, ainda me causa uma necessidade de reflexão.
Há alguns dias estava conversando com minha vizinha (a dos vasos - se não sabe do que estou falando, basta clicar aqui). Em determinado momento ela solta:
- "Mas tu nem parece uma brasileira, tu parece uma italiana."
Mal sabia minha vizinha que ela estava me dando entrada para um discurso que já tenho bem organizado na minha mente e que adoro explanar, explicar, esclarecer e todos os demais sinônimos compatíveis.
- "Pois a senhora sabe que no Brasil não temos essas questões de "parecer" ou não, porque o Brasil é um pais com uma mistura de povos incrivelmente bela. A senhora sabia (claro que não!) que de onde venho, do Sul do Brasil, existiu uma grande imigração italiana? Muitos italianos foram pro Brasil, lá pelo final de 1800. O Brasil tem milhões (MILHÕES) de descendentes italianos."
Ela, que fala muito, ficou muda. Continuei:
- "A avó paterna do meu marido nasceu em São Paulo, a senhora acredita?"
Ela sorriu e eu prossegui:
- "De onde eu sou, do Sul do Brasil, se a senhora olhar no mapa, aquele estado láááaaaa embaixo, pertinho da Argentina, teve uma grande imigração, daqui do Norte da Itália, muitos do Vêneto (região ao lado da que moramos)."
- "Tá aí! Por isso que tu parece italiana ..."
- "E se eu lhe contar que na minha árvore genealógica não tem italianos? São portugueses e espanhóis."
Ela ficou pensando ...
E eu sorri. Sorrio de verdade porque não me incomoda, pelo contrário, fico feliz com a oportunidade perfeita de contar um pouquinho de história. E de fazê-los perceber que, no final, somos mais ligados do que imaginamos. (no caso, eles imaginam).
Gosto de contar que no Sul do Brasil ainda hoje se falam dialetos do Norte da Itália que atualmente não se falam mais aqui por essas bandas. Ainda brinco: nós mantemos as tradições que vocês já perderam.
Gosto de contar que lá no Sul existe o chamado Talian, um dialeto reconhecido como patrimônio cultural brasileiro que mistura o vêneto com o português.
Quando falo que só a região de São Paulo tem milhões e milhões de descendentes italianos, o povo se assusta.
Segundo o Google, além dos cidadãos oficialmente registrados (por volta de 390.000), estima-se que a Grande São Paulo abrigue entre 15 e 20 milhões de descendentes de italianos.
Pois bem ... passaram-se alguns dias e fomos para Capistrello, a cidade do marido. Aquela rotina de cidade pequena, sempre encontra algum conhecido ou parente pela rua. Encontramos os primos do marido. Conversando com a esposa do primo, de repente ela me solta:
- "Mas tu nem parece brasileira ... até como tu fala ..."
Sorri. E o resto da conversa vocês já sabem:
- "E se eu te contar que de onde eu sou, do Sul do Brasil ..."
Acho que falta ensinar nas escolas essa parte da história deles, que se mistura com a nossa.
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P.S.: Nick Jr., que na época ainda era "Pequeno" estudou sobre isso no Brasil :) teve até post resumido sobre a história , basta clicar aqui para ver
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