Sobre vacinas.

[ quem avisa amigo é: post longo e chato]

Por causa da Rio +20, Pequeno teve feriado escolar: teve aula somente na segunda e terça. Agora aula novamente, somente na segunda.

Tinha planejado mil coisas pra gente fazer: ir a praia, curtir as exposições da Rio+20, ir ao médico levar os exames que ele fez, ir ao centro, comprar algumas coisinhas que ainda faltam para a escola, cinema, etc. Mas, somando um pouco de falta de tempo, um pouco de preguiça (a gente acaba se enrolando por casa) e mais um bocadinho de mau tempo, acabou que não fizemos quase nada. Os "passeios mais legais" (exposições, praia e cinema) foram ficando pra depois. Acabou que hoje já é sexta e não vimos nada, nem exposição e nem filmezinho e continuamos desbotados.



Na quarta aproveitei para levá-lo à pediatra. Estava preocupada, pois o exame dele deu um pouquinho de anemia (no meu parecer). E como foi o primeiro exame sanguíneo da vidinha dele, não sabia se era normal ou não.

Meu palpite não estava tão longe da verdade. Realmente ele está com um pouco de anemia. Nada exagerado ou preocupante, segundo a pediatra. Nada de remédio ou tratamentos. Apenas dar ênfase pra alimentação rica em ferro.

Também conversei com ela sobre as vacinas. Pequeno nunca havia tomado "as gotinhas" contra a paralisia infantil (ele tomou a vacina sim, mas em injeção). Tinha dúvidas se teria que dar ou não, já que esta seria última dose (e a primeira) que ele poderia tomar (é para crianças com até 5 anos). A pediatra confirmou que sim, que poderia dar essa única dose, sem problemas.

Pequeno, também, não havia tomado a BCG. Lembro que no meu tempo (há uns 25 anos atrás), tomei a BCG um pouquinho antes de entrar pra escola. Lembro como se fosse hoje o susto com a pistola e os cuidados posteriores com a ferida no braço pra deixar uma cicatriz bonitinha. Segundo a pediatra, hoje em dia esta vacina é dada em recém nascidos, aqui no Brasil.

Buscamos no livrinho de vacinas  espanhol  do Pequeno e não encontramos nada. Na lista de vacinas da Itália também não. E até onde me lembrava, Pequeno não havia tomado a tal vacina. Não lembro de nenhuma feridinha no braço (e o Papai também não lembra).

OK. Segundo a pedi, teria que levar o Pequeno pra fazer um teste chamado PPD. Que, explicando com a ajuda da Wikipedia, é mais ou menos assim:

"O derivado de proteína purificada (ou PPD), que é um precipitado obtido de culturas filtradas e esterilizadas, é injetado de forma intradérmica (isto é, dentro da pele) e a leitura do exame é feita entre 48 e 96 horas (idealmente 72 horas) após a aplicação do PPD. Um paciente que foi exposto à bactéria deve apresentar uma resposta imunológica na pele, a chamada "enduração". "

 Somente depois disso ele poderia tomar (ou não) a BCG.

Pois bem. Ontem fui levá-lo no posto médico onde fazia o tal exame. Pra variar um pouquinho,  a desorganização imperava no local. Muitos funcionários transitando pra lá e pra cá e muita gente esperando por atendimento.

Como aprendi na Itália, fui logo furando a fila. Afinal de contas, queria somente uma informação:

- "Onde posso fazer o PPD no meu filho?"

Uma moça me explicou que teria que girar em torno ao prédio e, logo, à esquerda.

- "É por ali", ela confirmou com uma incerteza típica de quem não está com muita vontade de trabalhar.

Pensa num lugar feio, sujo, mal cuidado. Cheio de portinhas. Uma era depósito de lixo, a outra depósito de material, outra era consultório, outra era banheiro público sujo pra caramba. Tudo isso dentro de um posto médico, uma portinha pegada à outra.

Entro numa sala onde informava "pneumologia". Não havia ninguém. Um senhor que estava por ali esperando, me diz:

- "É pra vacina? Se é, não é aqui, não. Gira mais ali à esquerda."

Na dúvida, resolvi ir pra outra salinha pra me informar melhor. Entrei na primeira sala repleta de crianças. Demorou um pouquinho pra abrir uma das muitas portas. Vi um senhor com jaleco branco e resolvi perguntar. Dessa vez fui atendida muito cordialmente. Ele me explicou que o PPD era feito na primeira sala aonde entrei. E me acompanhou até lá.

Não havia nenhum funcionário por ali. Somente dois senhores e uma senhora esperando, com cara de tédio. O balcão de atendimento estava sem ninguém. Sobre a mesa, várias caixas com remédios e um ventilador direcionado à parede ligado ao máximo. Talvez para as moscas que passavam por ali.

Esperei 10, 20, 30 minutos. E nada. Logo, um dos senhores começou a reclamar. Fazia quarenta minutos que ele esperava. Queria somente pegar os remédios pro tratamento da tuberculose.

Não tenho vergonha de reconhecer que morri de medo de estar com o Pequeno por ali. Sinceramente, não sei como se contagia com a tuberculose, mas na ignorância de uma mãe preocupada, me imaginei dizendo ao Pequeno:

- "Nem respira aqui, viu?"

Nisso, o outro senhor sentado ao lado, numa atitude típica de quem quer puxar papo, diz ao outro:

- "Eu também tô em tratamento. Achei que tivesse pegado tuberculose porque eu fumo. Mas, que nada ... acho que peguei pelo ar mesmo".

Socorro! Um tuberculoso na esquerda. Outro na direita. Eu e Pequeno no meio.

Sabe aqueles momentos em que a gente pensa:

- "O quê eu vim fazer aqui????"

Pensei em sair correndo dali. Mas também estava aflita com a função do teste. E um lado um pouco menos cretino e preconceituoso, me dizia pra seguir sentadinha ali.

Uns 15 minutos depois, aparece uma moça com cara de poucos amigos. Dá os remédios para o senhor, responde algumas coisas de má forma (pra não dizer sem educação). O papo nem era comigo, mas já fiquei estressada. Até que chegou minha vez.

Explico a situação. Ou melhor, tento ... porque ela nem me deixa terminar.

- "Olha, o PPD é feito somente terça e sexta. E se não tiver o encaminhamento do médico nem adianta vir."

Expliquei que nem a pediatra e nem o pessoal do posto do nosso bairro havia comentado de encaminhamento nenhum. Que me haviam dito de passar ali e pronto. Ela voltou a dizer a mesma coisa.

- "Moça, eu escuto muito bem. Não precisa repetir. Já entendi. Só estou dizendo que precisa haver acordo entre vocês. No outro posto sua colega não comentou nada a respeito. Por isso vim bem tranquila hoje. Se soubesse que perderia meu tempo esperando por você mais de quarenta minutos, pra depois ser atendida assim, nem teria vindo."

Virei as costas e saí. Logo, escuto um "ei, psiu!". Giro e era a moça.

- "Olha, eu lhe entendo ... mas deixa eu lhe explicar uma coisa. Eu, antes, trabalhei na vacinação. E, olha, tem crianças que não tinham a BCG e a gente nem fazia o teste, não. A gente dava direto a vacina."

- "É, moça, mas a pediatra dele me falou que precisa fazer sim. E se ele, pelo motivo que seja, já tenha tido contato com o vírus?"

- "Ahhh, mas eu acho que não. Ele não é criança de favela ..."

[alo-ou ... quase que digo: "e o vírus fica só por ali é?] . Desta vez achei que a cretina e preconceituosa fosse ela.

Vendo que não me estava convencendo nadica de nada, me disse para passar no segundo andar e falar com o pessoal da epidemiologia.

Subimos. Enquanto isso, Pequeno agarrado na minha perna, chorando: "Não vou tomar injeção! Não vou tomar injeção!".

Uma enfermeira, que encontramos pelo corredor,  me atende. Me diz que a médica não está. Informo a situação, explico de novo tim tim por tim tim. Ela me diz pra esperar. E lá vamos nós tomar chá de banco, outra vez.

Depois de um tempo ela volta. Me pergunta se tenho certeza de que ele nunca tomou.

- "Tenho certeza. Nunca tomou!".

Ela achava "estranho". De uma maneira educada digo que ela deveria de saber que existem lugares onde o vírus está erradicado. Sendo assim, não há necessidade de vacinação. Novamente ela pronuncia a frase chata:

- "Tem certeza?"

- "Tenho."

Pede, então, para ver o braço do Pequeno. Com um sorrisinho um pouco antipático, me diz:

- "Ele tomou sim. Olha esta cicatriz aqui".

Tento explicar que aquela cicatriz, assim como muitas outras que ela vai encontrar pelo corpinho do Pequeno - e uma, inclusive, bem ao lado - são cicatrizes de picaduras de mosquito. Explico que ele é alérgico, que tem muita reação, etc, etc.

Ela insiste que aquela é uma cicatriz da BCG.

No final, a mulher insistiu tanto que eu até fiquei com a dúvida. (sabe aquela história: basta afirmar muitas vezes uma mentira que ela acaba sendo verdade? Pois é)

Quando voltamos pra casa, pesquisei pela internet (porque já era tarde pra ligar pro hospital onde Pequeno nasceu na Espanha) sobre a BCG por lá. Todos os artigos e informações que li dizia o mesmo: desde os anos 80 a BCG não é dada. Também tirei a dúvida com uma conhecida que acabou de ter bebê por lá. Ela me confirmou que a filhinha não foi vacinada com a BCG.

Agora tenho que voltar na pediatra do Pequeno, pra contar do ocorrido, ver o que ela acha a respeito e pedir o encaminhamento pro tal do teste. Se tiver outra opção, não voltarei naquele posto médico.

E o Pequeno? Voltou feliz pra casa, cantando vitória:

- "Eu não tomei injeça-ão ... não tomei injeça-ão!".







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P.S.: e pra quem é tão ignorante quanto eu sobre como se transmite a tuberculose, mais informações por aqui, aqui e aqui

Um comentário:

  1. Bem vinda ao Brasil, Bella!!!
    Esta é a nossa saúde pública e os nossos funcionários públicos, que a última coisa que sabem fazer é atender ao público rsrsrs
    Que sorte para o Pequeno, que voltou sem levar uma picada. Mas pensando bem, aqui ele precisa dela. E que chato que terá que passar por toda esta maratona outra vez. Eu lia e imaginava o lugar, que horrorrrrr
    Baciones e um domingo maravilhoso para Tati e seus Nicolas!!!

    Rose Mazza

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