Neste último mês, presenciei algumas cenas na rua que me chamaram a atenção. Ambas dizem respeito a moradores de rua.
Há mais ou menos uns 15 dias atrás (se não me falha a memória no feriado de São Jorge), voltávamos pra casa depois de um longo passeio num dia lindo de sol.
De longe, avistamos um pequeno tumulto. Algumas pessoas estavam em volta de alguém. Chegando mais próximo, pudemos ver que era um senhor, morador de rua, que não sei por qual motivo havia caído. Com a queda, abriu o supercilio e havia formado uma pequena poça de sangue no chão. O pessoal que estava por ali já havia ligado para vir alguma ambulância. Aliás, estavam indignados com a lista de perguntas que faziam. Mesmo dizendo que se tratava de um desconhecido, possivelmente morador de rua, que havia caído e que não estava articulando palavra, eles insistiam pra saber o nome da pessoa. Vai entender ...
Um foi buscar água (para que o senhor a bebesse e, também, pra limpar o sangue do rosto) e outras duas mulheres o sujeitavam. Uma, inclusive, o acariciava com delicadeza e tentava acalmá-lo.
Alguns bons minutos depois apareceram guardas civis que fizeram o mesmo que já haviam feito antes: ligar para o Samu (192). Logo, chegou a ambulância.
O que me chamou a atenção nessa história (além da demora no atendimento e, por contrapartida, do espírito de solidariedade das pessoas), foi que ao tentarem colocar o senhor na maca, ele relutou pra não sentar ali, porque simplesmente estava preocupado com seus pertences. Pertences estes que estavam armazenados dentro de um saco de lixo.
O homem só subiu na maca quando a moça (a mesma que se preocupou em fazer carinho) pegou o saco de lixo e colocou dentro da ambulância. Ele tinha medo que alguém roubasse suas coisas.
Aquilo me emocionou. Por um momento pensei: ele não tem nada, possivelmente restos velhos dentro daquele saco. Mas, logo, me dei conta da minha petulância: o que pra mim era possivelmente nada, pra ele era tudo.
Mudando de cena ...
Ontem deixei Pequeno na escola e fui pagar algumas contas e comprar algumas coisas que faltavam pra casa.
Na volta, numa das ruas próximas de minha casa, avisto um casal de moradores de rua.
Já os conhecia, porque numa noite dessas, também de volta a casa, cruzamos com eles. Me chamou a atenção que estavam ambos no chão, sobre um papelão. Ele sentado e ela deitada em seu colo. Ela resmungava alguma coisa. Ele, limitava-se apenas a fazê-la cafuné, com muito carinho.
Pois bem. Ontem cruzei com eles, novamente. Ela vinha na frente, segurando algo que me pareceu duas marmitas. Ele vinha logo atrás, com um pedaço de papelão que certamente serviria de abrigo.
Em determinado ponto da rua, ela largou as marmitas no chão e sentou-se. Ele chegou logo depois e, acomodando o papelão na parede, disse para ela:
- "Olhá lá, hein?! Não vai fazer bagunça que você é muito desordenada!"
Fui quase obrigada a olhar pra trás novamente e constatei o que já havia visto antes: eles tinham apenas as marmitas e o papelão.
Contando o fato para o marido, ele resumiu bem a situação: dignidade é tudo!
Nossa!!! Verdade, dignidade é tudo!
ResponderExcluirNão tenho entrado no Blog, passo sempre muito rapidinho, porque você sabe: EU NÃO RESISTO e fico tempooooo lendo tudo rsrsr E infelizmente, agora não poderia.
Entretanto, não pude me furtar ao comentário. Você sempre me emociona com seus textos, e desta vez, não poderia ser diferente. Tenho andado um pouco melancólica, um pouco descrente (muito embora tente esconder isso deste povo que me vigia. Massss aqui, posso deabafar rsrs. Então... Este texto foi um "sacode" para que eu perceba o quanto eu tenho a agradecer, o quanto eu tenho de conquistas, sobretudo, a vida que levo junto a minha família...
Obrigada, Tati Bella, por este "toque sutil na alma"!! Acho que agora, posso recomeçar o meu dia com muito mais a agradecer, do que pedir.
SEM NUNCA ESQUECER, QUE DIGNIDADE É TUDO!! Valeu Nicola Pai ;)
Um beijo Bella, tudo de melhor para você e seus Nicolas.
Bella! Saudade de te ler por aqui :)
ExcluirEu acredito que a nossa família seja a base de tudo. E se temos uma bella família, a oportunidade de ver nossos filhos crescendo, com saúde, a oportunidade de desfrutar de nossos pais, um amor pra compartilhar conosco essa grande aventura que se chama vida, acredito q SIM só temos é que agradecer :)
A gente pode sim ficar descrente (e motivos não faltam, os dias hj andam muito turbulentos, malucos, etc), pode ficar irritado, chateado, reclamar (e nós ainda convivemos com a maldita TPM) ... mas acredito que no final se essa base que comentei antes permanecer sólida, vamos tocar adiante e confiantes de que necessitamos de pouco para sermos felizes, tendo já conquistado o principal.
Bjos, bella amica!
O que realmente acho terrível é que acabamos nos acostumando com moradores de rua, como se não ter uma coisa fosse uma coisa normal. Bendita você, que ainda tem sensibilidade para entender morador de rua como gente normal e até escrever sobre eles. Bendita você!
ResponderExcluir:)
Allan, infelizmente uma das coisas que mais me chocou no meu retorno ao Brasil foi a quantidade de pessoas morando nas ruas. Não que há 10 anos atrás não existissem moradores de rua, ou que não tivesse moradores de rua em Roma. Infelizmente existia sim e existem. Mas atualmente vejo famílias inteiras dormindo por aí, crianças, bebês. E, além do tema da falta de sensibilidade e respeito para com o próximo, isso tb significa que o Brasil ainda tem muito o que crescer no aspecto social.
ResponderExcluirMinha esperança está no futuro. Por isso, nós "pais do futuro" precisamos fazer nossa parte.
Um abraço!