1, 2, 3 e 4, 5, 6 e 7 - céu ... pulando amarelinha.

Ontem, já no elevador do prédio, lembrei que havia esquecido meu óculos. Marido se prontificou a ir buscá-lo. Pequeno e eu ficamos sentadinhos, esperando por ele. De repente, Pequeno resolveu brincar no play enquanto esperava pelo pai. No chão do nosso play existem vários mosaicos feitos com pedrinhas negras. Num deles, o mosaico simula um jogo de amarelinha.

Vendo meu menino meio desengonçado para a brincadeira, resolvi brincar junto.

- "Pega a pedrinha, joga. Tem que encaixar direitinho no quadrinho. Sai,  pula. Ali bota os dois pés, nesses outros somente um, tipo Saci Pererê. Não! Não pode queimar. Xiii, queimou!!! Sai fora que é minha vez."

Na mesma hora lembrei da minha amiga Fabi e de todas as vezes em que fui à sua casa para brincarmos de amarelinha. Era tão bom ... Infelizmente, hoje em dia não vejo mais a criançada brincando disso.

E enquanto meu Pequeno seguia brincando desengonçado, passou um flash acelerado, me levando lá no passado.

Agradeci por ter tido uma infância feliz. Aliás, se tem algum momento de minha vida em que fui plenamente feliz, foi na minha infância.

Brinquei na rua até tarde, joguei vôlei no campinho improvisado na esquina. Andei de bicicleta pelo bairro. Ia sozinha no supermercado comprar leite, pão e tudo mais que minha mãe mandasse. Aliás, até o pão naquela época era diferente. Não tinha essa história de pão francês (ou cacetinho, como falamos lá no sul): era um quarto de pão ou meio quilo (esse era somente quando tinha visita). Fiquei pensando se mandaria hoje meu Pequeno ao supermercado sozinho. Minha resposta foi instantânea: Claro que não!

Com certo sentimento de pena, vendo o menino queimando a amarelinha novamente, me entristeci ao ver que nem na rua o menino brinca direito. Pelo menos não diariamente como eu fazia com meus amigos.

Lembrei de ir pra escola sozinha. Passava na casa de uma amiga, batia palmas para chamá-la e, logo, passávamos na casa da outra. No meio do caminho encontrávamos mais alguém e chegávamos na escola em bando. Isso quando não íamos de Kombi, com meu pai. E ainda saíamos parodiando com uma música da Sandra de Sá

- "Joga a Kombi no lixo, joga a Kombi no lixo, joga a Kombi no li-i-i-i-cho ..."

Fui ter vídeo game somente depois de "burra velha" (como diria minha mãe). E, na falta de tecnologia (naquela época não existia nem celular), nossa imaginação voava longe: brincava de escola (com giz "roubado" na aula anterior), brincava de casinha com comidinhas improvisadas, brincava de "pegar", brincava de "se esconder" e brincava com algum que outro presente legal que os amigos ganhavam de Natal ou aniversário.

Fui até madrinha da boneca da minha amiga Fabi (aquela mesma da amarelinha). E senti uma felicidade absurda em ter a certeza que ela vai continuar sendo minha amiga pra sempre. A vida é corrida, cada um segue o seu destino, mas graças a internet conseguimos manter esse contato vivo e vez que outra nos reencontramos.

Lembrando isso, me entristeci novamente por meu Pequeno: ele não terá um amigo de infância, desses que a gente nem lembra como conheceu: costumo dizer que eu e Fabi somos amigas de "desde sempre".

Lembrei do dia em que fui parar no SOE da escola (o SOE - que nem sei se existe mais - era uma paradinha no purgatório antes de entrar pro inferno = sala do diretor da escola). Fiz uma brincadeira sem graça e meu colega fez queixa. Logo, a professora Angela me chamou pra um bate-papo. Tremia mais que vara verde. Ainda lembro do sermão até hoje. Por sorte não teve bilhetinho chamando meus pais na escola (aliás, acho que até hoje eles nem sabem disso). 

Também teve o dia em que, com a ajuda da minha prima, bati num menino na escola. O danado fazia piadinha dizendo que era meu namorado.

- "Meu namorado??? Ah! Ele vai me pagar!"

Eu e a prima arquitetamos um plano mirabolante e, na hora do recreio - que hora tão esperada essa! - o chamei pra uma conversinha. O panaca veio todo feliz. Não deu tempo nem de dizer "oi". Enquanto minha prima o segurava, enchi o menino de soco (não no rosto, porque a intenção não era machucar, só dar "um sustinho"). E ainda, ao finalizar a pequena tortura, o ameacei: 

- "E se fizer queixa na secretaria, vai apanhar de novo ... e mais ainda."

Ele não deu queixa e alguns dias depois até viramos amigos. O que terá sido da vida do Diógenes?

Brigona. Fui muito brigona ...

Também lembrei da primeira "paixonite", aquela que só a gente sabe e vive. O menino morava atrás da igreja. Ir para as aulas de catequese era uma maravilha. Na hora do intervalo ia pros fundos da igreja, espiar entre as grades a casa do menino. Mas a paixonite morreu no dia em que fiz xixi na sala de aula. Morri de vergonha do menino ... certamente ele não ia querer saber nada de uma mijona pública, né?

Lembrei de arrancar as cabeças das minhas bonecas pra jogar bola.

Dos ensaios de dança, teatro e outras apresentações que fazíamos na casa da minha amiga Katiúscia. Felizmente mantenho contato via Facebook com ela também.

Lembrei de quando andava "de cavalo" no pobre do Magrão (nome do cachorro da minha amiga Magali). E de como a gente sofreu quando ele morreu - ele não morreu porque montávamos nele ... morreu de velho, pobre do Magrão! Eu e Magali aprontamos poucas e boas ...

Lembrei do dia em que fomos pedir dinheiro na rua para "ajudarmos aos nossos pais". Minha mãe, quando descobriu, me levou pra casa pelos cabelos e me deu uma surra tremenda.

-"Aonde já se viu pedir dinheiro na rua, Tatiana?!"

Quando me chamava pelo nome completo - TA TI A NA - era porque o negócio estava sério mesmo.

E naquela época os pais podiam bater nos filhos sim, não tinha essa coisa de direito da infância, não bate que vai traumatizar, etc e tal.

Abre parêntesis:  (com isso não quero dizer que fui espancada quando criança. Pra ser bem sincera, apanhei muito menos do que merecia ... porque hoje reconheço que fui uma peste). Fecha parêntesis.

Lembrei do desespero cada vez que aparecia a "carrocinha dos cachorros". Aqueles malditos que recolhiam os pobres cachorrinhos da rua pra fazer sabão ...

Hoje vejo meu filho, desengonçado, tentando brincar de amarelinha. Vejo meu filho "expert" em joguinhos do Ipad, mestre gravando vídeos no celular, fanático no canal infantil da TV a cabo. Tadinho dele!

Naquele mosaico de pedras no chão do play, voltei lá atrás no meu passado. E quando retornei ao presente, tive uma única certeza: eu fui feliz! E sei disso!

Tudo culpa da danada da amarelinha ...



P.S.: embora nem saiba se passarão por aqui ou não, um beijo gigante a todos(a) os(as) amigos(as) de infância.

4 comentários:

  1. Tô ficando velha que nem tu, pq minha infância foi muito parecida com a tua, correndo na rua até tarde, batendo palma pra chamar a amiga pra brincar, apanhar, apanhar, apanhar e apanhar mais um pouquinho; não ter amigos de infância mas ter muitos bons amigos e por ai vai! (L) Beta.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. ... e vai chegar o dia em que tu vai me alcançar :)
      Bjokinhas sobrinha amada!

      Excluir
  2. Não te preocupa, pois o Nicolinha está sendo feliz, do jeito e na época dele.
    A essência de tudo é pararmos de buscar a felicidade eterna, permanente, e aproveitarmos os pequenos momentos felizes (sejam eles jogar amarelinha, brincar na rua, assistir TV a Cabo, baixar vídeos, jogar no I-Pad, no vídeo-game...)
    O tempo passa e o "nosso" tempo não é melhor nem pior que os outros... é diferente, é "nosso".
    Graças a Deus que temos as lembranças daqueles momentos felizes para recordar, sorrir, chorar, sonhar...
    Bjão. Fiquem com Deus.

    Tio Beto_53

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. è vero, tio Beto!
      Tenho consciência disso, são momentos e ciclos diferentes.
      Só me preocupa que atualmente falamos tanto em "liberdade", que somos "livres", mas vejo crianças presas em casas (pq a violência na rua anda demais), vejo crianças presas a jogos eletrônicos, se prioriza muito pelo individual, não se pode bater em um filho, não se pode e não se pode.
      Não quero nem pensar quando chegue a adolescência :)
      Bjinhos pra vcs!

      Excluir

Deixa um recadinho pra gente aqui, vai!

"Quarent'oitei"

    Dia 18 de Abril (que data bonita!) completei 48 anos.      Não. Não estou aqui para escrevê-los sobre idade, o peso dela e o quanto ela ...