Aconteceu no Metrô.

Resolvemos prolongar o passeio caminhando do Leblon a Ipanema, até a estação do metrô. Fazia um excelente final de tarde de sábado. Havia parado de chover, ainda era dia, clima fresquinho, algo bem raro nos verões do Rio.

Pequeno fez o trajeto reclamando de cansaço. Eu e marido olhávamos as vitrines das lojas que já estavam fechadas e lembrávamos de quando chegamos aqui no Rio e moramos por 3 meses naquela zona. Lamentávamos pelo nosso estresse inicial em encontrar casa, escola para Pequeno, a mudança que não chegava nunca. Não aproveitamos tudo o que de melhor poderíamos ter aproveitado.

Passamos pela Praça General Osório. Havia movimento de policiais e muitas barraquinhas para a Feira Hippie dos domingos já estavam sendo montadas.

Estávamos descendo na escada rolante da estação do metrô e lá estava ele. O vendedor de balas. Poderia ser mais um dos muitos vendedores de balas que encontramos por aí. Mas não era. 

Sentado numa cadeira de rodas, um senhor que não me atrevo a dizer sua idade, portador de uma deficiência grave, talvez uma paralisia total. No colo tinha um balaio com guloseimas. Atado no balaio, um cartaz que dizia "me ajude a comprar minha cadeira de rodas". Passamos reto. Mas não fomos indiferentes com a cena.

Não o ajudei e me limitei a enraivecer-me com a pessoa que o deixara ali naquela situação.

- "Que espécie de pessoa abandona este homem aqui?"

Pensei que poderia ser um infeliz e irresponsável que chegaria pela manhã, o deixaria ali na entrada do metrô, aguentando todos os perigos possíveis (pensei logo nos trombadinhas que poderiam além de roubá-lo, machucá-lo, já que aquele homem tinha grande parte dos movimentos comprometidos, pelo pouco que pude perceber). Pensei no calor que ele sentiria passando todo o dia ali, aguentando o sufocante verão carioca.

Senti raiva. Muita raiva.

Marido também não ajudou. Mas, tenho certeza, se sensibilizou. A cena não passaria despercebida e indiferente para ninguém.

Uns 10 passos depois, Pequeno pede dinheiro para o pai. Queria dá-lo ao senhor.

- "Não temos."

Ele insistiu. Insistiu por mais umas duas ou três vezes. Diante da nossa negativa, ele começou a chorar. Desesperadamente, com olhos que transmitiam dor, muita dor.

- "Por favor! A gente precisa e pode ajudá-lo."

Foi então que meu coração, que estava duro feito pedra, amoleceu.

E se realmente ele precisasse de ajuda? Afinal de contas, ele não estava "somente" pedindo. Ele estava trabalhando. Ele poderia ter no colo somente um cartaz pedindo ajuda. Certamente muitas pessoas o ajudariam. Mas não. Ele estava vendendo balas. E se ele fosse sozinho? Ou se a pessoa que o cuida também necessitasse de cuidados?

A rotina aqui no Rio de Janeiro fez com que me blindasse no quesito "ajudas". Cansei de ajudar pessoas, de me sensibilizar com situações que, depois, acabaram me decepcionando. É só dar uma volta pela cidade e ver mães que exploram os filhos, que os usam como moeda de câmbio. Muitas vezes até para comprarem drogas. Acabei sendo consumida pela incredulidade, pela desconfiança, pela falta de crença no próximo.

Não tínhamos trocados na carteira. Demos ao Pequeno uma nota com que poderia comprar uns 4 ou 5 pacotes de guloseimas. Ele se girou e, na companhia do pai, foi em direção ao senhor. Eu não fui capaz de acompanhá-los. Talvez por vergonha da minha atitude e pensamento anterior.

De longe vi que Pequeno pegou uma única guloseima, sem escolher muito. Na verdade, mesmo ele sendo apaixonado por doces e porcarias cheias de açúcar (e com dinheiro suficiente para comprar algumas), ele queria apenas uma porque o intuito dele era ajudar. Disse ao senhor que poderia ficar com o troco. Se girou e voltou com uma carinha mais aliviada.

Perguntei se o senhor havia falado alguma coisa. Ele não falou nada, contou Pequeno, talvez porque não pudesse.

Pequeno começou a chorar novamente. Chorou porque a cadeira do senhor estava velha, rasgada e suja. Ele realmente precisava de uma cadeira melhor. Tentou contar mais alguma coisa, mas o choro fez com que engasgasse. 

Com os olhos já vermelhos de tanto pranto, respirou fundo e contou que quando disse ao senhor que não precisava do troco, com muita dificuldade, o senhor sorriu.  Soluçando, disse:

- "Mãe! Ele sorriu pra mim!"

Ele  tinha certeza que aquela era a maneira com que o senhor estava lhe dizendo "muito obrigado".

Eu não sabia direito o que dizer e buscava o olhar cúmplice do marido, que também havia ficado em silêncio. Pequeno, então, disse sentir raiva daquela situação e que precisava, quando crescer, fazer algo para ajudar as pessoas.

Abrindo mão de preconceitos, prejuízos, desconfianças, incredulidades. Abrindo mão da dureza do coração dos adultos, da falta de fé e da arrogância com que nos permitimos julgar muitas situações, apenas me limito a pensar: quem dera todas as raivas tivessem a pureza, a simplicidade,  sinceridade  e bondade de um coração infantil! Quem dera, meu filho, quando você cresça seja capaz de ajudar, sem pedir nada em troca. Quem dera você, da sua maneira e como seja capaz, consiga fazer e ser o diferencial para alguém. Ajudar simplesmente porque sua índole, seu caráter e seu  coração assim o peçam. Oxalá, meu filho! Oxalá!

5 comentários:

  1. Que post emocionante. Veio um nó na garganta, talvez por me reconhecer nessa atitude de não ajudar. Também cansada de ser enganada.
    Mas aí vem Nicola.. Que menino de ouro, coracao valente, amoroso... É pq não tenho filhas, pois se tivesse já estaria juntando o dote para garantir o casamento com seu filho!

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  2. "Fazer o bem, sem olhar a quem!"
    Simples assim...
    Nicola, a partir do conceito bíblico básico de amar a si próprio, ama indiscriminada e incondicionalmente.
    Que Deus conserve esta pureza!
    Belíssimo. Bravo!
    Bjs. Fiquem com Deus.
    Tio Beto_56

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  3. Ai como eu amo essas historias dele. Uma coisa que eu irei prezar na educação do meu fikho e idso..fazer o bem sem olhar a quem.. ser grato por tudo.. ajudar sempre que possível e ser bom ne ?!. Seu filho tem um coração muito grande. Um beijo grande pra voces

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  4. Só agora, vi este post.
    Vim aqui, ver se havia postagem diretamente da Itália, e eis que me deparo com esta preciosidade!
    Não precisa nem dizer, Que à princípio, fiquei surpresa com sua reação. Sigo lendo e...

    Buaaaaaaa.. buaáaaa ������
    Fico tentando reunir palavras para descrever o que senti e durante todo o tempo, mesmo enquanto lia silenciosamente, ia dizendo : DEUS LHE ABENÇOE, NICOLINHA!!! Você não é uma mera criança, com a pureza de uma criança! Tenho certeza que você é um ser iluminado, pleno de luz, com uma vivência enorme, com aprendizados que vêm de outras vidas (desculpe-me quem não compactuar desta crença), com uma missão muito linda!! Vocês foram escolhidos para gerar este ser tão especial! Deus siga lhes abençoando nesta linda missão de permitir a ele ser quem é!!! Aprendendo com ele! Agradecendo, diariamente, é acima de tudo, crendo que ele ainda fará maravilhas pelo próximo!
    Amar à Deus sobre todas as coisas, e ao Próximo como a si mesmo" estes são os primeiros mandamentos do Pai.
    Na prática, por tudo que temos vivenciado, fica difícil exercitar este mandamento e crer que fora da caridade não há salvação. Sobretudo porque sempre correremos o riso de sermos vistos como hipócritas, falsos, piegas...
    Entretanto, Deus que é sábio, todo poder e bondade, permite que criaturinhas lindas, como Nicolinha, não nos deixem esquecer tais máximas do Cristo!!
    Lindooooo!! Um bacione nele, por mim, Bella!!
    DEUS siga lhe abençoando junto aos seus Nicolas!

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  5. Sim, Nicolinha suas atitudes são de um ser ILUMINADO... As tuas atitudes são motivo e orgulho para todos nós.

    Renato Fraga
    OIM - OMB

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