Tenho uma grande dificuldade para encapar cadernos, livros, qualquer coisa que precise ser embrulhada no danado do Contact. Definitivamente não tenho jeito para esta habilidade manual (me atrevo até dizer dom ... precisa de dom para não deixar o troço cheio de bolhas de ar, vamos combinar!).
Estava concentrada, concentradíssima encapando o primeiro caderno dos três que precisavam ser encapados, fora os livros. A primeira tentativa foi frustrada, o negócio ficou feio pra caramba. Com cuidado e paciência retirei o maldito plástico (que foi direto para o saco do lixo - reciclável, isso sim). A segunda tentativa pediu atenção redobrada.
Não sei se me concentrei tanto que acabei meditando, ou se a atenção e cuidado em apertar o plástico no sentido certo fez com que entrasse em alfa ... mas o fato é que fui pra longe da minha sala. Viajei, bonito, em pensamentos lontanos.
- "Será que minha mãe encapava meus cadernos?", questionei a mim mesma.
Surgiu uma vaga memória com uma curta resposta afirmativa:
- "Sim."
Talvez encapasse com plástico, papel (de presente?). Mas acho que Contact não. Será que existia isso na "minha época"?
- "Que sorte que teve a minha mãe!"
Enquanto cortava com cuidado a ponta do plástico que havia sobrado (pra fazer a dobra perfeita no acabamento da capa do bendito caderno - o primeiro, de três), pensei em escrever um recadinho para Pequeno, no interno da capa, branquinha, lisinha, lindinha. Aquela lindeza que só os cadernos novinhos tem (porque depois fica um lixo, sejamos sinceros!).
- "Melhor, não! O ano inteiro lendo o mesmo recado, vai encher o saco, pobre menino! Com certeza vai dar um jeito de logo, em cima da minha letra feita com esmero, vai colar um adesivo do Star Wars, Homem Aranha, algum jogador de futebol, qualquer coisa que deixe pra trás as palavras melosas e cheias de segundas intenções que somente as mães sabem como escrever."
Viajei por tanto tempo em pensamentos que quando percebi, já estava colocando o nome e série do meu Pequeno nas canetinhas hidrocor. Sim! Tudo precisa ser devidamente identificado. E mesmo assim, daqui a umas duas ou três semanas alguma canetinha vai estar perdida pelo universo escolar, algum lápis mordido na ponta, alguma borracha cortada ao meio, régua quebrada ... enfim ... Concentra, Tatiana! Ainda falta encapar os livros, colocar nome no dicionário, nos instrumentos para a aula de música, baquetas, papéis, colas ...
Reaproveitei muita coisa do ano passado. Economizei no bolso, mas o trabalho foi dobrado: tinha que tirar com cuidado as etiquetas do 2°EF, para atualizá-las com o nome e o tão esperado 3°EF (TERCEIRO ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL - Pequeno cresceu, ontem mesmo estava na creche ... daqui a pouco passa no vestibular - tomara!). Concentra, Tatiana!
Não lembro que minha mãe precisasse comprar tanto material assim. E não lembro dela colocando meu nome nas canetinhas (12 grossas e 12 finas - pra quê tanto?).
Enquanto analisava o caderno recém encapado (o bendito!), analisando se as bolhas que insistiram em ficar poderiam desaparecer com um simples furo de uma agulha qualquer, passei folha por folha daquele caderno (o bendito!) branquinho e novinho. Sorri pensando no que meu Pequeno escreveria ali, com sua letrinha difícil. Se neste ano teria mais cuidado com a letra, com os desenhos, até mesmo com a data (porque o danado, pra ganhar tempo, ao invés de escrever "redondinho e bonitinho" um 'Rio de Janeiro' assim inteiro, se limitava a colocar um RJ com um garranchão danado).
- "Senhor das Causas Impossíveis, olhai por meu filho e abençoai-o com uma mãozinha mais leve e cuidadosa, fazendo com que o lápis deslize delicadamente por essas brancas linhas, formando uma letrinha, no mínimo legível."
Com a caneta para tecido, com muito cuidado, escrevi o nome da criatura e a turma (3°EF, escrevi com orgulho!) no estojo novinho, recém comprado. Não foi o de R$50 do Star Wars que ele queria, mas dentre as opções que dei, foi o que ele escolheu.
- "Santinho Protetor das Crianças Avoadas, abençoai meu Pequeno e fazei com que ele não guarde uma caneta sequer sem tampa, para que não aconteça o que aconteceu no ano passado, quando o tadinho do antigo estojo ficou repleto de tinta, sabe-se lá de qual caneta que tenha estourado. Fazei com que ele zele por seu material e não quebre o apontador, pelo menos não nesta primeira semana - embora tenha um já de reposto, mas que ele não saiba disso, Santinho, por favor!"
Confesso, reconheço e admito que não resisti ao colocar seu nome na flauta. Ajeitei meu ricos dedos nos buraquinhos da bendita e - pasmem! - lembrei como se fosse ontem de algumas notas que aprendi na minha aula de música.
- "Que o anjo protetor das crianças em aprendizagem cuide e zele por meu filho! Que permita com que ele tenha anseio por aprender, que se dedique o suficiente para que a escola seja um local de aprendizado, mas também de felicidade; de conhecimento, mas também de diversão; de avaliações em um boletim, mas de bons momentos que ficarão escritos na memória para o resto da vida, assim como as notas musicais que aprendi há quase 30 anos."
Desisti de encapar os livros. Deixei para o dia seguinte. Até porque era muito material para ser levado num dia só. Haja mochila e coluna (de mãe - porque a gente fica com pena e acaba carregando a mochila da criatura) para aguentar tanto peso.
- "Ai, Santinho das Crianças Levadas e Danadas. Fazei com que o amiguinho que bate nele volte mais calminho. Controle os lábios do meu filho nos momentos em que a gana de beijar (na bochecha) alguma coleguinha seja maior do que a atenção ao fazer um dever. Guiai-o para que feche a tampa da garrafa ao colocá-la de volta na lancheira (principalmente nos dias em que ele não bebe tudo!). Que rale menos os joelhos nas aulas de Educação Física. Que preste atenção nas tabuadas e que as divisões não sejam um labirinto sem saída."
Separei o que já iria para a escola logo no primeiro dia e o que faltava, coloquei numa sacola plástica. Realmente não dava para terminar tudo no mesmo dia. Minha coluna já dava sinais de esgotamento, pés inchados e restos de Contact grudados por toda a roupa (eu avisei: sou um desastre encapando!).
Não sei se minha mãe encapava meus cadernos, colocava nome nas minhas canetinhas ou cansava as pernas buscando etiquetas do meu personagem favorito. Mas que ela também rezava por mim, disso eu tenho certeza. Ah, rezava!
Encapar cadernos, nem sabia que ainda faziam isso. Eu que encapava os meus. Minha mãe me ensinou e amava fazer, claro que não era contact, como vc disse... Precisa de um dom.
ResponderExcluirBom, meus pensamentos positivos para que seu pequeno tenha um ano letivo com muitos aprendizados e que ele também passe a ser mais atencioso. Esse deve ser o pedido de todas as mães, né? Todos os anos...
Bela crônica!
ResponderExcluirA melhor forma que encontrei de usar o maldito Contact foi usar uma régua, para que a pressão seja a mais uniforme possível.
Mesmo assim, ficava uma droga! rs
Bjs. Fiquem com Deus.
Tio Beto_56