Borboletas no Estômago.

- "Não sei por que tu te arruma toda pra encontrar com o pai?", disse Pequeno logo após saber que iria almoçar com o marido.

- "Bom, primeiro lugar estou me arrumando porque quero me sentir melhor, mais bonita, mais arrumada. Segundo, porque também quero que teu pai me veja mais bonita, mais bem arrumada."

- "Não sei pra quê isso ... vocês já são casados ...".

Fiz meus cálculos mentais para saber qual soma de genes foi responsável pelo surgimento desta minha criatura.

Pequeno faz alguns comentários que me deixam com uma certa incógnita: ele é ciumento, um pouco "machista" e até mesmo "preconceituoso" - tudo na sua medida e entre aspas, claro, até mesmo porque uma criança da idade dele ainda não tem o caráter totalmente formado (coisa que me deixa aliviada: ainda tem solução!). Mas o que me espanta de tamanha atitude é que não vem decorrente de um exemplo que ele tenha em casa. 

Tanto eu quanto o pai dele somos pessoas sem preconceitos (divergimos sobre alguns temas, coisa mais do que o normal: cada um tem o seu próprio pensamento e isso demonstra que, embora um casal, somos indivíduos e nos respeitamos como tal). O pai dele não é um homem ciumento: não implica com minha maquiagem nem com  o tamanho da minha saia ou do meu decote (coisas que, por exemplo, incomodam ao Pequeno). Ele resmunga toda vez que tem que colocar uma camiseta cor de rosa (que agora, mudei de tática e disse que é salmão - assim ele, mesmo contrariado, acaba usando),  implica (agora já não tanto) com as caipirinhas que bebo de vez em quando, com o biquini para ir à praia, enfim ... poderia listar alguns pequenos detalhes de implicâncias do meu filho ciumento e que não tem que ver com o caráter, gênio e muito menos atitudes do pai dele.

Muitas vezes vejo meu pai em miniatura. E isso me assusta. Até mesmo porque entre o avô e o neto existem um pouco mais de 7 décadas de diferença: épocas, realidades, contextos, vivências e um mundo totalmente diferentes.

Então, fui obrigada a bater um papo sério com ele:

- "Vem aqui! Que eu e teu pai "já" estejamos casados não significa absolutamente nada. Primeiro porque casamento não é sinônimo de "já deu, pronto, acabou". Se eu me visto melhor, passo maquiagem, vou pra academia ou perco tempo fazendo as unhas e escovando o cabelo é, em primeiro lugar, pra me sentir bem, me sentir melhor, me olhar no espelho e não tomar um susto. Mas também gosto de fazer isso para que teu pai se apaixone a cada novo dia por mim."

Nesse momento ele riu. Na verdade, deu uma gargalhada de deboche. E voltou a dizer:

- "Mas vocês já são casados."

- "Somos casados, mas isso não significa que, uma vez encontrado o amor da vida da gente, a gente tenha que se abandonar, se conformar e deixar tudo como está. Se "ainda" (A-I-N-D-A) estamos casados, é porque queremos estar juntos e, também, porque seguimos apaixonados. Precisamos renovar à cada dia o amor, o desejo de seguir junto, o encantamento. É ter friozinho no estômago quando a gente encontra com a pessoa."

Ele fez cara de "minha mãe e seus papos furados". Eu prossegui:

- "Imagina se saio agora para encontrar com teu pai e saio sem tomar banho, com os cabelos feios do jeito que estavam antes, logo após arrumar a casa, toda suada e despenteada. Imagina se eu coloco uma roupa qualquer: qualquer bermuda, qualquer camiseta, qualquer saia. Não significa que teu pai iria me deixar, até porque ele me vê muitas vezes assim. Mas, se eu chegar bonita, arrumada e, principalmente me sentindo bem, ele não fica mais feliz?"

- "Vai ficar todo orgulhoso", respondeu.

- "Exato."

E continuei:

- "Um relacionamento, seja ele de casal, de amizade e até mesmo profissional, é construído de muitas coisas. Mas uma delas é esse cuidado pra não cair na mesmice de sempre. Tu ainda é muito novinho, mas vai chegar o dia em que tu vai ter uma companhia na tua vida. E tu vai perceber que um dos grandes segredos dos relacionamentos é sempre surpreender. É fazer a pessoa ter sempre vontade de estar conosco, de nos ver. A surpresa e o friozinho no estômago de emoção são combustíveis pro coraçãozinho da gente seguir batendo forte por quem a gente ama."

- "Hummmm, mãe! Tá caidinha por ele, hein?!"

- "Caidinha total! Eu por ele e ele por mim. Não é legal isso? Ver um pai e uma mãe apaixonados?"

- "Tá bom, mãe. Já entendi. Chega agora desse papo. Dá pra gente mudar de assunto?"

Conversamos sobre algumas outras coisas e, logo, ele perguntou:

- "Mãe! Tu tava falando sério daquele negócio de frio no estômago?"

Tenho muito trabalho pela frente. Mas juro que Pequeno será uma versão bem melhorada dos meus genes. Ah, juro!





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